Manifesto: Pelos Sistemas de Agricultura e Alimentação Tradicional
- Fran Paula
- 16 de nov.
- 3 min de leitura

Aliança Científica Antirracista – COP30 / Amazônia / 2025
Introdução
O chamado “Mutirão Global pelo Clima”, adotado como slogan oficial da COP30 pelo governo brasileiro, expõe uma contradição profunda. A palavra mutirão, de raízes indígenas e afro-brasileiras, ligada ao trabalho coletivo e à defesa da vida, é mobilizada como metáfora de união global, mas não se traduz em práticas reais de inclusão. Nesta COP30, assistimos à exclusão sistemática das vozes, presenças e narrativas de povos indígenas, quilombolas e afrodescendentes, justamente aqueles que há séculos realizam, na prática, o verdadeiro mutirão pelo clima, preservando territórios, florestas, águas e modos de vida que sustentam o planeta.
Essa apropriação simbólica, dissociada da participação política efetiva desses povos, revela uma incoerência ética e racial, uma violência epistemológica que ignora que a coletividade e a ação climática concreta são produzidas diariamente nos territórios tradicionais.
Este Manifesto emerge, portanto, como convocação ao autêntico mutirão pelo clima: aquele construído pela ancestralidade, pela solidariedade territorial e pela defesa de sistemas alimentares que regeneram ecossistemas e enfrentam as causas estruturais da fome e da crise climática.
1. Quem somos e de onde falamos
Falamos desde os territórios onde o alimento nasce como reza, onde a roça é corpo e a floresta é casa. Somos a Aliança Científica Antirracista, rede de pesquisadores/as, agricultoras, griôs, mestres e guardiões de saberes indígenas, quilombolas e afrodescendentes.
Atuamos na produção de conhecimento e incidência política a partir da terra, do corpo e da memória. Reunidos na COP30, afirmamos: não há justiça climática sem justiça racial e alimentar.
2. O que defendemos
Os Sistemas de Agricultura e Alimentação Tradicional não são apenas modos de produção, são formas de viver e de cuidar, expressões de uma ecologia ancestral e de uma ciência territorial.
Neles, mulheres, anciãos e juventudes mantêm a diversidade de sementes, a fertilidade dos solos, a saúde das águas e a regeneração das florestas.
Esses sistemas integram práticas agrícolas, espiritualidade, nutrição, biodiversidade e autonomia, revelando que a alimentação saudável é inseparável da sustentabilidade e da justiça social.
3. O papel nos territórios
Nos quilombos, aldeias e favelas, os sistemas tradicionais sustentam a vida quando o Estado falha.
São eles que garantem o acesso a alimentos agroecológicos e livres de agrotóxicos, estruturando redes locais de abastecimento, feiras, cozinhas comunitárias e trocas solidárias.
Essas práticas ampliam o direito à saúde e à alimentação, fortalecem a economia de base comunitária e demonstram capacidade concreta de combate à fome e às desigualdades sociais que historicamente assolam nosso país, desigualdades agravadas pela crise climática.
O que nasce do território é também remédio contra a fome e contra o racismo que estrutura a distribuição da terra, da renda e da comida.
4. Diagnóstico crítico
A COP30 propõe debater os sistemas alimentares como caminho para a sustentabilidade global. No entanto, observamos que o tema é frequentemente tratado de modo superficial e tecnocrático, reduzido a métricas de carbono e produtividade.
Chamamos isso de monocultura do pensamento, que produz também a monocultura das terras, das dietas e das políticas.
Essa lógica mata florestas, desestrutura comunidades e nega a inteligência dos povos que há séculos sustentam a biodiversidade do planeta.
A crise climática é também crise civilizatória e epistemicida, e exige outras formas de pensar e agir sobre o alimento e a vida.
5. Proposições e compromissos
Reafirmamos que os Sistemas de Agricultura e Alimentação Tradicional e Saudável são infraestruturas vivas de futuro.
Eles já praticam a transição justa e sustentável que o mundo reivindica: regeneram florestas, equilibram ecossistemas, promovem saúde e inspiram políticas públicas de reparação e justiça.
Defendemos que sejam reconhecidos como:
bens comuns da humanidade,
pilares da soberania e segurança alimentar planetária,
instrumentos eficazes de mitigação e adaptação climática.
6. Chamado à ação
Convocamos governos, agências internacionais, instituições científicas e sociedade civil a:
Garantir proteção territorial e financiamento direto às comunidades guardiãs desses sistemas;
Reconhecer a dimensão de saúde, abastecimento e justiça social das práticas quilombolas, indígenas e periféricas;
Incluir os sistemas agrícolas tradicionais nas políticas globais de clima, biodiversidade e alimentação;
Promover uma transição antirracista, decolonial e reparadora, que coloque os povos do Sul Global no centro da governança climática;
Demarcar e titular e proteger territórios indígenas e quilombolas.
7. Ciência que nasce da terra
Sem terra não há comida. Sem floresta não há ar. Sem justiça racial, não há futuro climático.
O alimento que nos salva é o mesmo que nos ensina: semear coletivamente, a cuidar do comum, a resistir com doçura e inteligência.
Os Sistemas de Agricultura e Alimentação Tradicional e Saudável não pertencem ao passado, são o presente que sustenta a vida, a resposta do Sul Global ao colapso ecológico e moral do mundo, a semente de um novo pacto entre humanidade e natureza.
Somos ciência que nasce da terra.
Somos território que pensa, planta e sonha.
Somos o alimento do futuro, e o futuro é agora.
Assinam
Aliança Científica Antirracista Rede de pesquisadores/as indígenas, quilombolas e afrodescendentes.
Comentários